29 de agosto de 2013 Comentários (0) Sem categoria

Deus vive sobre duas rodas

É quase como se você pudesse voar!

Começo a descida da Grande Montanha, depois, uma subida de quatro horas partindo de uma grande junção, algo em torno de 3.400 metros de altura. O tipo de lugar onde a altitude mexe com você e com sua cabeça. Como se dissesse: “Eu estou no controle agora!”

A Mãe Natureza junta-se na conspiração e envia tudo, desde vento congelante, chuva e muita neblina. Você se prepara para enfrentar o vento que ameaça derrubar você e sua bike e invocar a sua coragem, o tempo todo querendo saber o que o afinal você está fazendo ali!

Afinal, quem em seu perfeito juízo faria isso? Seria como desperdiçar toda semana de férias para andar de bicicleta mais de 500 kilometros, escalando picos das montanhas e tendo em frente cerca de 22.000 metros de altitude acumulada para subir.

Você faria? E como você iria pilotar sua bike por um lugar que parece ser a mais assustadora descida de sua vida? Você sabe porque você está aqui: Você ama este lugar absolutamente abandonado, onde o medo dá lugar à entrega pela experiência.

Você esteve aqui antes e você vai estar aqui novamente. Esta é a sua igreja.

Pode parecer estranho para os não iniciados, mas o ciclismo, como a religião, representa de certa maneira, a oportunidade de confiar no que não pode ser visto. O desafio extenuante de subir e descer nosso paraíso de montanhas é suficiente para desencorajar a maioria das pessoas. Mas você não é um deles! Você sabe que é diferente e você sabe que essa diferença vai força-lo ao seu limite. Ciclismo ensina lições de vida que você simplesmente não pode aprender em qualquer outro lugar. Você desistiu de questionar tudo isso a muito tempo atrás.

Você pedala para a liberdade e para a solidão. Você pedala para a purificar a mente vivendo a experiência de sair da sua zona de conforto para o desconhecido. Poderia ser apenas outro sábado de treino matinal mas para você é um passeio de proporções épicas, pedalar sobre montanhas rochosas. Você pedala por algum motivo louco além do entendimento daqueles que ficam em casa tomando café aos domingos pela manhã ou tentam encontrar um lugar de estacionamento mais próximo da porta do shopping ou supermercado. Você sabe que esta experiência é diferente de qualquer outra. Você faz isso, porque cada vez que você repete, sua vida muda!

Sua vida? É realmente a sua vida ou é Deus realmente desfrutando-a através de você?

E se você tirar as mãos do guidão só para descobrir? Você pensa nisso por um momento de nanosegundos até que volta para a realidade. Sua bicicleta quer ir por esse frio, lama e vento em algum lugar acima de 50 quilômetros por hora! Você pode sentir isso crescendo como se estivessem nascendo asas abaixo de você. E para ser honesto, parte de você quer deixá-la voar para percorrer, ver onde vai dar o caminho e deixar esta existência terrena para algo um pouco mais, digamos, “celestial?”

Isso acontece antes do medo se instalar em você e fazer apertar a alavanca do freio com um pouco mais de dificuldade. No que parece ser apenas alguns minutos, você mergulha e se lança através de descidas que estão a milhas distantes de toda segurança relativa dos apartamentos, ou mesmo de longos trechos sem fim de asfalto que lhe trouxeram a esta montanha, preparando o caminho para todas as montanhas restantes.

As mesmas trilhas que em tempos passados ​​foram usados ​​pelos índios Ute para guiar Europeus através desta área, agora estão representados por linhas tortas e desbotadas em velhos mapas; estradas que atravessam o coração de pequenas cidades do Colorado. Estas pequenas cidades do país que você raramente se lembra. São apenas um borrão visto pela janela de um motorista dirigindo seu carro em movimento. Mas são como pequenos tesouros escondidos quando vistas sobre uma bicicleta.

Dobrando discretamente esquinas por trás de jardins ensolarados com e varáis amarrados entre duas árvores, vive uma parte muitas vezes esquecida da Americana. Um lugar que todos nós já vimos. Um lugar onde você pode apenas diminuir o ritmo e levar as coisas na velocidade da vida. Estas são as cidades que lembram sua infância… e você está feliz que elas ainda estão aqui.

Você começa a perceber a fragrância inconfundível de lilases e ruas repletas de casas onde cães descansam dormindo no frescor da sombra de um balanço feito de pneu velho com rochas suavemente enfileiradas lado a lado. Emoldurado por vales que parecem lembrar um sonho americano, que nunca morrerá. Estes são os poucos lugares que trazem conforto para nossas almas e nos lembram que a América rural ainda está bem viva. Os velhos e as crianças te olhando enquanto você passa.

Há carros em cima de blocos de concreto com rodas faltando e cemitérios antigos cheios de memórias e as ervas daninhas entre os túmulos. Há pêssegos e milho à beira das estradas, celeiros e tratores, românticos trilhos de trem.

O passeio se torna uma meditação tranquila e seus pensamentos um oásis espiritual. Você se sente como uma criança outra vez! Você é um garoto de novo! Você pedala a frente em direção ao sublime Monte San Juan…
É bom ver como essas cidades antigas que parecem se apegar a suas formas originais e você sorri com percepção de que você também. O que aconteceu com a vida simples? Você se pergunta: Onde ela foi? Você promete de jogar fora o seu telefone celular e abandonar a cidade grande, mas, infelizmente, talvez os dois podem ser conciliados, equilibrados, permitindo a coexistência de ambos.

Sua memória irá voltar a este mundo sempre que a fome por um pouco de paz de espírito ou por uma fatia de torta de pêssego fresco! À medida que o sol se põe, você termina o seu dia 60 kilometros de distância de onde você começou. Algo acontece com você após sete dias em uma bike. Algo maravilhoso!

É aqui, sobre um selim de couro em cima de fibra de carbono e pneus estreitos, que você vem passar sua vida a limpo e refletir sobre o que é realmente importante. É aqui, nesta jornada aparentemente sem fim sob um céu gigante, que você se lembra, mais uma vez, o quão importante é relaxar na presença de Deus, a confiar no conhecimento de que tudo é exatamente como deveria ser.

Para você, a bicicleta se tornou “um instrumento da vossa paz”, e a estrada, o seu Santuário. Há uma razão para você estar aqui e não é para praticar exercício. Para você, Deus vive sobre duas rodas! Para você, pedalar nas montanhas é um retiro espiritual.

O sol da manhã escorre suavemente por entre as árvores e me pergunto se você sempre despertou tão espontaneamente! Mais 60km e você chega no final do seu trajeto, feliz por ter completado a viagem, mas um pouco triste com a realidade que o espera. Pelo menos, o passeio é longo.

Algo em você agora está diferente da pessoa que começou o passeio sete dias atrás. No fundo, o que realmente importa, é que você já enfrentou seus medos e corajosamente abordou algumas das questões que na vida são muitas vezes mais difícil do que escalar qualquer montanha real que você subiu.

Pedalar nas montanhas lhe deu o dom da renovação espiritual, mas mais do que isso, esta experiência capturou seu coração. Claro, seus músculos doíam mas há uma coisa que é certa, este é o lugar a que você pertence. Ah … e há mais uma coisa que é certeza. Você vai querer voltar no próximo ano!

Texto Original: Jeffrey Alan Hall
Tradução: Adriano Gabriel
Revisão: Pablo Amorim

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