9 de janeiro de 2018 Comentários (0) Artigos & Dicas, Destaque, Faça Você Mesmo

Dicas para comprar uma bicicleta usada

É um grande prazer para mim ajudar amigos na busca de uma bicicleta usada.  É divertido garimpar bikes na internet, sempre existem muitas opções e se você tiver bom olho e paciência dá para conseguir fechar negócios muito, muito bons. Sempre recomendo bicicletas de segunda mão para todos que conheço, principalmente para quem está com o orçamento apertado (que convenhamos, é quase todo mundo). Só que sei que é fácil se perder na infinidade de modelos, descrições confusas e fotos de má qualidade dos sites de compra e venda de usados. Por isso decidi escrever esse artigo, para mostrar qual é meu método de avaliação quando vou à caça, que talvez ajude a quem está procurando a encontrar sua nova companheira de aventuras.

Tentei ser o mais completo possível, e acabei escrevendo bastante. Não deixe a quantidade de parágrafos te assustar: não existe certo e errado, são só preferências pessoais. Amigos ciclistas podem te ajudar muito na busca também, e inclusive emprestar suas bicicletas para você ir testando e descobrindo quais são seus gostos.

Índice:

  1. Por que comprar uma bicicleta de segunda mão?
  2. Onde procurar bicicletas usadas?
  3. Bicicletas baratas = Bicicletas roubadas?
  4. Que bike eu preciso e quanto tenho que gastar?
  5. Como avaliar as condições de uma bicicleta?

1 – Por que comprar uma bicicleta de segunda mão?

Por vários motivos. É ecologicamente saudável comprar coisas usadas. Todas as mercadorias têm sua pegada ambiental, e bicicletas não são exceção. As mineradoras contaminam a água e devoram lentamente montanhas inteiras para extrair o metal que é usado numa bike, que precisa ser transportado por caminhões movidos à diesel, refinados numa indústria igualmente poluidora, transformados em peças por funcionários mal pagos em algum país do sudeste asiático e trazidos em navio para serem vendidos nas lojas daqui. Para que alimentar esse processo de exploração se existem tantas boas bicicletas paradas por aí? E esse pensamento vale para tudo: livros, roupas, móveis, carros… se se pode conseguir usado, eu prefiro, sempre.

Seguindo essa linha, também gosto de pensar a compra de algo de segunda mão como um resgate. Nós ciclistas adoramos pensar nossas bicicletas como mascotes, que têm nome e personalidade. Uma bike não é um simples conjunto de metal e borracha; ela tem alma, ela quer estar aí fora rodando, sentindo o vento do mundo e descobrindo novos lugares. É triste pensar na quantidade de bikes de garagem que estão por aí, empoeiradas e com os pneus murchos, esquecidas por seus donos. Adotar uma bicicleta dessas é um ato de amor.

Eu também prefiro fazer negócios com uma pessoa do que com uma empresa. O dinheiro flui de forma mais direta, sem intermediários. E mais de uma vez o vendedor era tão gente boa que a compra acaba virando uma visita a um amigo, e junto com a bike você ganha um companheiro de pedal. Já vendi meu bom bocado de bicicletas também, e é sempre reconfortante saber que sua montaria encontrou um novo dono gente fina que vai cuidá-la bem.

E claro, é bem mais barato do que comprar uma nova na loja – o que quer dizer que com o mesmo dinheiro você consegue algo bem melhor.

 

2 – Onde procurar bicicletas usadas?

– Sites de compra e venda de usados: os dois maiores sites de usados são OLX (www.olx.com.br) e Mercado Livre (www.mercadolivre.com.br). Usei muito ML, mas ultimamente tenho buscado somente no OLX por alguns motivos: lá você tem o contato direto do vendedor, como telefone e e-mail, sem ficar refém dos mecanismos de comunicação do site. Isso agiliza a negociação. No OLX também as ofertas são ordenadas por data, as mais recentes primeiro. Isso ajuda a encontrar o joio do trigo: se uma bicicleta está há duas semanas no site e ninguém comprou ainda, é porque não é interessante. As boas oportunidades normalmente não duram 48 horas de anúncio e são vendidas; por isso nem vale a pena ver bicicletas com três dias ou mais de tempo de exposição.

Aí entra o jogo da paciência: o bom garimpeiro não dá uma olhada na internet uma vez e compra o que há no momento: ele cria a rotina de visitar todos os dias e vê apenas os anúncios recentes, durante algumas semanas. Isso custa menos que 5 minutos e em algum momento vai surgir uma oferta imperdível, e você que está vendo o site diariamente vai ser o primeiro a ficar sabendo. Aí é só questão de não perder tempo: ter já o dinheiro separado, entrar em contato com o vendedor e marcar de ver a bicicleta o mais rápido possível. Acredite, as boas ofertas, boas mesmo, não duram dois dias em exposição.

– Grupos de facebook:

também há muitos grupos de facebook de compra e venda de bicicletas usadas. Eu prefiro buscar nos sites específicos porque há mais abundância de anúncios e a informação está mais organizada, mas esses grupos podem ser uma boa opção principalmente para moradores de cidades pequenas, que não têm tantas opções de ofertas como em São Paulo, Curitiba ou Rio de Janeiro.

– Bicicletarias de bairro: 

as bicicletarias mais simples quase sempre vão ter algumas usadas à venda; a vantagem de buscar aí é que com certeza a bike vai estar reguladinha, é fácil de voltar se tiver qualquer problema e é um bom jeito de iniciar uma boa relação com seu mecânico de confiança. A desvantagem, que nem é tão desvantagem assim, é que é mais difícil de conseguir “negócios da China”, já que quem trabalha com bicicleta sabe avaliar e vai por um valor justo na magrela.

– Garagens de prédios:

todo prédio residencial possui um cemitério de bikes bicicletário com muitas bicicletas empoeiradas. É um ótimo lugar para começar a procurar: existem vários modelos para comparar e dá para fazer um test-drive ali na hora. Se gostou de algo que parece que não está sendo usado, descubra quem é o dono (o porteiro normalmente sabe) e faça uma proposta. Se não mora em prédio, você pode ver no de algum parente ou amigo.

Procurar bicicletas assim também abre outra possibilidade: pedir a bicicleta emprestada. Se quer descobrir se pega o gosto do pedal antes de investir em uma bike, pedir emprestada para o vizinho pode ser uma boa. Faça uma proposta: você paga uma revisão completa na bicicletaria em troca de alguns meses de uso compartilhado. Vale a pena para os dois lados.

 

3 – Bicicletas baratas = bicicletas roubadas?

Muita gente tem medo de comprar em sites de usados por temer estar comprando bicicletas roubadas. Para mim isso é um mito. Não vou dizer que não existem bicicletas roubadas nos sites de usados, mas acho que isso é bem mais raro do que a maioria pensa. Convenhamos, se você roubasse uma bike, iria tentar revende-la na internet, onde o dono consegue facilmente encontra-la e chegar até você? É um B.O. enorme, e ladrão de bike não é burro. Não, bicicletas roubadas normalmente são vendidas na rua a preço de banana assim que o meliante bota as mãos nela, ou desmontadas e vendidas as peças separadas para dificultar a identificação.

De qualquer jeito, às vezes aparecem anúncios que são de desconfiar mesmo, com preço fora do real e descrições genéricas e mal escritas. Assim, existem maneiras para tentar certificar-se de que a bike não é roubada. Se desconfiou, a primeira coisa a fazer é checar no Cadastro Nacional de Bicicletas Roubadas(www.bicicletasroubadas.com.br). Inclusive, ciclistas que tiveram suas magrelas subtraídas: nunca deixem de registrar o incidente aí. Se não está lá, o jeito é entrar em contato com o vendedor e ver sua história. Há quanto tempo tem a bicicleta, porque está vendendo, pedir informações sobre os componentes, onde comprou, essas coisas. Ver se ele te convence. Se quiser pode pedir nota fiscal, mas sério, quem guarda essas coisas?

Não, bicicletas baratas não são sinônimo de bicicletas roubadas. O perfil de quem está vendendo barato normalmente são dois: ou é alguém que não está preocupado com grana, que quer vender rápido para não ter dor de cabeça e porque o espaço que a bicicleta está ocupando vale mais do que os reais que ganharia vendendo mais caro. Normalmente são pessoas que compraram a bike no exterior ou faz muito tempo e não sabem seu preço real aqui no Brasil. O outro perfil é meu favorito: é o ciclista que vende barato porque se importa mais que sua bicicleta encontre um novo dono que com dinheiro. Vende barato e sabe disso, mas quer que seja um bom negócio para as duas partes para incentivar alguém a pedalar. Eu acho isso nobre e bonito.

 

4 – Que bike eu preciso e quanto tenho que gastar?

Tudo bem, você já sabe onde e como encontrar sua nova parceira de aventuras. Mas que modelo de bicicleta é o mais indicado? Isso depende do uso que quer dar para a bicicleta e qual seu perfil de ciclista. A maioria das pessoas que ajudo estão atrás de um desses três tipos de bicicleta abaixo; a seguir, uma descrição rápida do uso desejado, um orçamento médio e o que busco quando estou atrás de uma.

Qualquer bicicleta, de qualquer orçamento, deve ter o tamanho adequado para o ciclista que a vá utilizar. Existe gente que mede todas as medidas do corpo e da bicicleta com precisão de milímetros, o chamado bike-fit (você pode fazer um online aqui). Para a maioria das pessoas, basta saber que os baixinhos precisam de um quadro pequeno e os compridos um quadro grande. Pode ser a melhor bicicleta do mundo a um preço de banana, mas se ela não é do seu tamanho, esquece.

– Bicicleta simples para usar na cidade e pequenos passeios (orçamento entre R$150 e R$400):

Ok, com esse orçamento não dá para exigir muito, mas igual você só quer algo com duas rodas e dois pedais que te leve para os lugares. É um negócio um pouco arriscado comprar uma bike nessa faixa de preço: existe muita coisa muito ruim por aí, as temidas “bikes de supermercado”, que são de péssima qualidade e super desconfortáveis; por causa delas muita gente desiste de pedalar. Mas é possível sim encontrar algo bacana, que te vai durar anos sem dar dor de cabeça. Algumas das bikes que viajamos no projeto Balanceando (www.facebook.com/balanceandoo) são dessa faixa de preço, e estão há mais de ano rodando por Paraguai, Brasil e Bolívia sem passar vergonha.

Normalmente nessa faixa de preço se está buscando algo simples, que vá servir como transporte na cidade e passeios no parque, e também como experimento para ver se você pega o gosto pela coisa antes de investir numa bicicleta mais cara. Não é fácil encontrar uma bicicleta com todas essas características, mas isso é o que eu busco com esse orçamento:

  • Maioria das peças de metal (freios, câmbios, pedais, pedivela, manetes de freio): a maioria das bicicletas econômicas vai ter muitas peças de plástico; isso é sinal de má qualidade, pois o plástico é menos resistente, menos eficiente e com vida útil mais curta. Busque bicicletas que tenham componentes de metal, principalmente freios, câmbios e pedivela;Freios V-brake: existem vários tipos de freios, e o meus favoritos são os chamados V-brake. Simples, eficientes e de manutenção fácil. Uma bike com v-brakes de metal ganha muitos pontos comigo quando estou caçando algo nessa faixa de preço;
  • Quadro de alumínio: são mais leves que os de ferro.
  • Sem suspensão: não é que você não vai encontrar bikes com amortecedor com esse orçamento, mas é que eles vão ser tão vagabundos que só vão servir para deixar a bike mais pesada sem amortecer nada. Prefira bicicletas rígidas, sem suspensão dianteira ou traseira.
  • Passadores de câmbio Rapid-fire: o nome é todo moderno, mas os “rapid-fire” são bem práticos. Bem melhores do que os passadores de alavanca (thumb shift) ou aqueles que se troca torcendo o pulso, como uma moto (grip shift). Não é muito fácil encontrar passadores assim nessa faixa de preço, mas às vezes aparece, principalmente em bikes que o dono fez uns upgrades com o tempo. Tanto faz o número de marchas, desde que elas estejam trocando direito; prefiro uma bike sem marchas do que uma que não troca bem e desregula fácil;
  • Componentes em bom estado:se a bicicleta está tão barata, talvez alguma peça esteja gasta ou com algum problema. É difícil de se certificar que a bike está bem de saúde só por fotos, mas sempre estou com o olho atento para ver câmbios tortos, ferrugem em excesso na transmissão, amassados no quadro e rachaduras no pneu.
  • Geometria confortável: muitas bicicletas de supermercado são na verdade máquinas de tortura medieval disfarçadas. Evite bicicletas com o quadro muito pequeno e guidões curtos – suas costas e joelhos agradecem.
  • Descarte automático: freios e manetes de freio de plástico, passadores “grip shift”, transmissão claramente oxidada, qualquer tipo de suspensão traseira, suspensão dianteira que pareça muito pesada, guidões curtos, retos ou que pareçam desconfortáveis, aparência de estar abandonada há muito tempo;

    – Bicicleta de uso urbano diário ou para cicloviagens (orçamento entre R$500 e R$1200)

    É minha faixa de preço preferida quando estou buscando uma boa bicicleta, uma companheira fiel para os próximos anos. Claro que gastando mais que isso você consegue melhores componentes, mas com esse orçamento já se consegue algo bom o suficiente para praticamente qualquer necessidade, e agora você já tem opções que se adequem ao seu perfil de ciclista.

    Se você quer uma bicicleta para usar na cidade, são quatro opções: uma mountain bike rígida (sem suspensão), uma mountain bike com suspensão dianteira, um modelo mais urbano ou uma speed simples, para os que gostam de ir rápido. Se o uso primário é para viajar com alforjes, eu ficaria só com as duas primeiras opções (uma speed numa estrada de terra é um peixe fora d’água, e esses modelos urbanos não são os mais confortáveis para se estar horas pedalando).

Isso é o que procuro numa mountain bike ou bicicleta urbana:

  • Todos os componentes de metal: se vejo qualquer peça de plástico nem sigo olhando, principalmente freios, câmbios e pedivela;
  • Freios V-brake: nessa faixa já vão começar a aparecer alguns freios a disco, mas sigo preferindo os v-brakes pela sua praticidade e durabilidade, principalmente se é para cicloviajar. Penso duas vezes se encontrar freios a disco hidráulicos Shimano ou Tektro em perfeitas condições – são superpotentes, principalmente na chuva, mas têm manutenção mais delicada. Não gosto de freios a disco mecânicos e já tive más experiências com discos hidráulicos Avid. Na dúvida, V-brakes.
  • Passadores Rapid-fire: qualquer outro tipo de passador, nem sigo olhando.
  • Câmbios Shimano: você verá muitos anúncios que dizem que a bike é “toda shimano”. Isso quer dizer bem pouca coisa, pois a Shimano tem uma linha enorme de componentes, dos mais vagabundos aos de uso profissional. As boas linhas de câmbios Shimano têm nome. Do pior ao melhor: Tourney < Altus < Acera < Alívio < Deore. Uma bike de R$600 com Altus ou Acera é um bom negócio, do mesmo jeito que uma de R$900 com Alívio ou uma de R$1200 com Deore. Mas tenha isso mais como referência que como regra: como a tecnologia no ciclismo avança rápido, muitas vezes um câmbio Altus do ano passado é tão bom quanto um Deore com 20 anos de idade. Na prática, qualquer um desses modelos é sinal de qualidade e deveria estar funcionando bem, com trocas limpas e sem ruídos. SRAM é a concorrente americana da japonesa Shimano, e também tem bons câmbios. Procure bicicletas com no mínimo 21 velocidades, e se são modelos diferentes, é mais importante ter um bom câmbio traseiro que um dianteiro.
  • Quadros de marcas de renome: a maioria dos quadros aguenta o tranco sem problemas, a diferença é que marcas de renome costumam ter melhores componentes que as mais populares. Marcas como Trek, Cannondale, Specialized, Scott, Soul, são sinais de qualidade; sobre o material do quadro, a maioria dos fabricados hoje são de alumínio, mas também existem bicicletas mais antigas (e na minha opinião, mais estilosas) com bons quadros de chromoly. Alumínio vs Chromoly é uma polêmica antiga no mundo do ciclismo, e você pode ler mais sobre ela aqui.
  • Pneus sem cravos: a maioria das MTBs vem com pneus com cravos, que são pensados para estrada de terra. Eles não rendem bem e gastam rápido no asfalto. Pneus lisos são muito melhores para uso urbano. Existem vários tamanhos de pneus, que são medidos em polegadas. A medida mais comum é 1.9’ ou 2.1’, que são medidas largas, pensadas para terra. Para asfalto gosto de mais finos, entre 1.0’ e 1.5’. Mas pneus são fáceis de trocar e os mais simples saem uns R$30 a unidade – se não gosta, é só comprar um par novo. Sobre tamanho de aros, os mais comuns são 26”, mas também há os 29”, um diâmetro maior e mais confortável que ganhou muita popularidade nos últimos anos. Encontrar uma boa 29” nessa faixa de preço é um belo achado.
  • Suspensão: o conforto que uma suspensão dianteira oferece em terrenos irregulares acompanha uns dois quilos a mais de peso para a bicicleta. Existem muitas que são puro enfeite, não amortecem nada e só fazem deixar a bicicleta mais pesada. Certifique-se que a suspensão esteja funcionando bem e não pese muito. É difícil de encontrar nessa faixa de preço, mas às vezes é possível encontrar uma com trava, o que recomendo muito: além de ser sinal de qualidade, a trava evita que a suspensão “coma” energia do pedal nas subidas, por causa do movimento de amortecimento.
  • Adicionais: Barends, ciclocomputador e luzes pisca-pisca são algo que me atrai. Capacete, trava e bomba, só se forem de qualidade. Os mais simples são desconfortáveis, frágeis e ineficientes.

Descarte automático: peças de plástico; câmbios de modelo genérico; passadores que não sejam rapid-fire; freios que não sejam V-brake ou disco hidráulicos; suspensão traseira; suspensão dianteira que pareça pesada ou de má qualidade; quadros de marcas desconhecidas; geometria que pareça desconfortável.

O que procuro numa speed com esse orçamento:

Speeds (ou estradeiras) são aquelas bikes de corrida, de pneus finos e guidão drop. Muita gente tem preconceito com elas, que são desconfortáveis e quebram fácil. É um mito. São ótimas bikes, rápidas, leves, eficientes, que aguentam o tranco. Recomendo muito uma speed para os que vão passar mais tempo no asfalto do que na terra e têm perfil esportista (que curtem a adrenalina de ir rápido e não têm fobia a esforço físico). São ótimas para transporte, em 15 minutos você está em qualquer lugar.

A grosso modo, se diferencia as speeds mais simples (a infinidade de Caloi 10, Monark 10 e equivalentes) das mais modernas pelo tipo de passador de marchas. As mais antigas e baratas (por volta de R$500) têm passador de alavanca, e resto dos componentes igualmente antigos e baratos. As speeds mais modernas têm sistema de marchas “STI”, onde você troca de marchas direto no manete de freio, e é isso que eu procuro quando estou atrás de uma.

5 – Como avaliar as condições de uma bicicleta?

Bacana. Você pesquisou, esperou por boas oportunidades, separou o joio do trigo, entrou em contato com o vendedor e foi ver a bike pessoalmente. Mas como avaliar se ela está em bom estado? Isso é o que eu faço:

  1. Geral: a primeira coisa é dar uma olhada geral. A bike está jeitosa ou parece abandonada? Procure arranhados, rachaduras, amassados, ferrugem e outros sinais de desgaste; a maioria desses vão ser apenas estéticos, mas algo mais grave pode influenciar na vida útil da bike. Pergunte a quanto tempo o dono tem a bicicleta, a quanto tempo está parada, se ela já sofreu algum amassado ou acidente grave e quando foi a última revisão;

  2. Transmissão: me inclino e dou uma bela olhada na transmissão. A corrente tem que estar firme, limpa e lubrificada, sem muitos sinais de oxidação nem muito movimento lateral. Fique atento para ver se há algum elo duro, enferrujado por dentro. A coroa e o cassete têm que estar igualmente limpos e sem oxidação, e sem os dentes gastos. Confirme que os câmbios traseiro e dianteiro estejam bonitos, limpos e com roldanas em bom estado. Pergunte se a corrente e o cassete já foram trocados alguma vez, e quando. Aproveite e confirme se a bike tem mesmo todas as velocidades que estavam anunciadas. Veja se o pedivela e os pedais estão firmes, sem movimento lateral.

  3. Freios: os freios devem estar alinhados e bem regulados. Aperte e solte algumas vezes e gire as rodas com a bicicleta parada para ver se eles estão pegando nos aros. Veja se os cabos dos freios e câmbios não estão enferrujados. Veja se a sapata de freio não está muito gasta. Aproveite que está aí, segure o guidão com as duas mãos, aperte o freio dianteiro e balance a bicicleta para frente e para trás, para ver se a caixa de direção (a peça que prende o guidão e o garfo ao resto da bike) está firme, sem movimentos indesejados.

  4. Rodas e pneus: gire as rodas manualmente, com a bicicleta parada, e se coloque numa posição para confirmar que estão com o eixo alinhado, girando limpas, sem tremer ou balançar nem fazendo ruídos estranhos. Tente mover a roda lateralmente, e veja se está com jogo: se estão se movendo, é sinal de que os cubos (os eixos das rodas) estão um pouco soltos. Passe os olhos e as mãos pelos aros, procurando amassados ou imperfeições. Um aro com paredes côncavas é sinal de que está gasto e não vai durar muito tempo. Aperte todos (todos!) os raios, e veja se algum está quebrado ou sem tensão. Veja se os pneus não estão ressecados, e se há algum rasgo ou defeito, principalmente onde o pneu encaixa com o aro (é aí que ele costuma rasgar).

  5. Suspensão: faça força para baixo para ver como está o amortecimento. Não pode ser uma pedra de duro, mas também não pode estar muito solto. Se a suspensão tem trava ou regulagem, teste.

  6. Conforto: monte na bicicleta com ela parada (apoie o ombro em uma parede ou peça para o vendedor segura-la enquanto isso), sentado no selim, com os pés no pedal e as duas mãos no guidão, e pedale para trás para simular o movimento. Se sente confortável? Algo te incomoda? A distância entre o selim e o guidão é muito curta? O guidão é muito estreito? As manoplas são confortáveis? Você alcança com facilidade o passador de marchas e os manetes de freio? O selim é confortável? A bike parece do tamanho certo?

  7. Test Drive: saia para um pedal. Não são só 20 metros na frente da casa; no mínimo dê a volta no quarteirão, mas o ideal é um pouco mais. Procure testar a bicicleta na subida, na descida e em terrenos irregulares. Durante o pedal, teste o câmbio passando marcha por marcha, subindo e descendo, para ver se alcança todas e as trocas estão limpas e sem ruído; teste as marchas mais leves na subida e os freios na descida, um de cada vez e os dois juntos; pedale um pouco de pé e faça curvas em relativa velocidade para conhecer o centro de equilíbrio da bike; preste atenção se sua postura está confortável; e principalmente, sinta o jeitão da bicicleta e veja se ela te escolhe como novo companheiro.

É quase impossível que absolutamente tudo esteja em perfeitas condições: é uma bicicleta usada, afinal de contas. O importante é se certificar que não há nada grave, e se será necessário trocar alguma peça ou enviar a bike para o mecânico. Se sim, converse com o vendedor com sinceridade e tente abater isso do preço.

Espero que essas dicas tenham sido úteis de alguma maneira, principalmente para quem está iniciando nesse mundo. A chegada de uma nova bicicleta é sempre um momento mágico, que pode mudar a vida de muita gente, sempre pra melhor. Foi o que aconteceu comigo, e é o que desejo para todos.

Por Felipe Fontes

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