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Qual é o limite do humor? Quando a piada é sem graça!

Qual é o limite do humor? Se você acompanha nossos humoristas brazucas sabe que esse questionamento é bastante recorrente. Uma definição é considerada um consenso entre eles, que é:

“Não há humor de qualquer espécie, gráfico ou não, se não houver liberdade de expressão. Portanto não há limites para o humor”

De um lado, temos os adeptos da liberdade de expressão, gritando contra a censura e a imposição forçada dos bons costumes,  defendendo um campo que, segundo as suas definições, vive da transgressão, garantindo que o fascismo está batendo nossa porta. Do lado oposto, encontramos os que juram a pés juntos que, como aliás na vida, no humor não vale tudo, que ofender não é piada e que a transgressão tem limites. No final das contas ficam as seguintes questões:

    • Quando o humor agressivo deixa de ser humor e se torna uma ofensa que gera um dano indenizável?
    • Quais instrumentos jurídicos podem ser utilizados para proteger a pessoa nos casos em que a manifestação de pensamento for considerada abusiva?
    • Quem responde pelos excessos?

Penso que exatamente por isso, humorista que é humorista não usa o humor como desculpa para falar o que quiser. Ele sabe que o humor tem princípio e que se isso lhe faltar o que sobra é apenas migalha, e que essa migalha pode até gerar risada, mas nada mais, lhe faltando o próprio humor. No entanto, há os que não são humoristas. Trabalham com a linguagem do humor, mas não fazem humor.

É fato que muitas coisas causam risadas sem ser humor, pois só rimos do que não nos afeta emocionalmente, ou seja, só é possível rir do que não se conhece. É por essa razão que predominam, no conteúdo daqueles que dizem fazer humor mas não o fazem, as ofensas e os discursos de senso comum, posto que estes são baseados na falta de empatia e em estereótipos que reduzem pessoas e ideais a rótulos. esse ambiente é muito fértil para aqueles que possuem dominação sobre os demais.

Um exemplo desse humor que não é humor é o “humor” do Murilo Couto que faz parte do elenco do The Noite no SBT. Na maioria de suas “piadas”, ele trás preconceitos contra diversos grupos, na verdade quem compactua com seus discursos é quem não se vê no conteúdo. Essa piada de mal gosto sobre os ciclistas tem uma plateia que bate palmas aos risos, contribuindo com esse tipo de discurso. Imagino que se fosse feita essa mesma piada com um grupo de ciclistas, onde vários deles já perderam amigos justamente com uma história similar a essa contada pelo “comediante”, com certeza ele não ouviria aplausos e gargalhadas.

Humoristas como o Murilo Couto defendem que seu humor é autodepreciativo mas suas narrativas apontam para o contrário: quando se autodeprecia, ele não é taxativo como com outros grupos sociais, fazendo uso de um humor que não humilha e não o coloca em uma situação inferior aos demais grupos. Apenas isso já seria suficiente para criticá-lo.

Resumindo, muitos comediantes têm se apropriado do humor vazio, de certo modo, desviando do real propósito do humor. Acredito que em um momento de grande tensão sobre os assuntos que envolvem aspectos político e sociais, o humor se transformou em ferramenta de dominação e poder, para aqueles que tem maior visibilidade. Murilo Couto conta com 2.6 milhões de seguidores no Instagram e outros milhares espalhados em suas outras redes. Nesse vídeo que viralizou no último final de semana, o “humorista” faz pouco caso do maior medo que um ciclista pode ter, que é de ser atropelado nessa selva que é o violento trânsito das nossas capitais, incitando ódio e violência diante de um cenário que já é alarmante.

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Nota de repúdio às “piadas” do humorista Murilo Couto

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