Nem todo mundo que fala sobre mobilidade urbana com empatia pratica o que prega. Nem todo “defensor da causa” age com justiça. Nem todo blog que se apresenta como espaço de transformação realmente transforma algo — a não ser sua própria conta bancária, por meio de processos jurídicos silenciosos e estratégicos.
Este texto é sobre isso.
A armadilha da falsa ética no ativismo digital
O ciclismo urbano é, por natureza, uma causa coletiva. Quando alguém se propõe a liderar essa pauta na internet — escrevendo, influenciando, aparecendo em campanhas — espera-se que essa pessoa carregue também um compromisso com os valores que a bicicleta representa: solidariedade, empatia, inclusão, sustentabilidade, comunidade.
Infelizmente, descobrimos da forma mais dura que alguns nomes celebrados nesse meio escondem por trás da linguagem técnica e da estética ativista uma postura fria, individualista e oportunista.
Quando a máscara do “defensor” cai
O que dizer de alguém que:
- Foi remunerado por uma instituição financeira para produzir conteúdo educativo sobre o uso da bicicleta;
- Teve esse conteúdo compartilhado com todos os créditos, por um blog pequeno e familiar, feito com o único intuito de ampliar o alcance dessa mensagem;
- E mesmo assim, optou por processar judicialmente quem o divulgou, sem qualquer aviso, diálogo ou tentativa de conciliação?
O que dizer de alguém que:
- Enviou notificações para endereços incorretos, fazendo com que o processo ocorresse à revelia;
- E ao final, prejudicou financeiramente uma família inteira, que teve salários bloqueados e teve que lidar com uma condenação de R$ 23 mil por danos morais — por algo que não gerou lucro e foi feito com boa-fé?
Essa pessoa não representa a bicicleta, nem a mobilidade urbana. Representa o uso da retórica do bem para praticar o silêncio do outro.
O impacto real na vida real
Enquanto essa figura mantinha seu discurso de defensor da ética e da mobilidade, aqui do outro lado estávamos:
- Lidando com o bloqueio integral de nossos salários;
- Sem recursos para garantir alimentação, saúde e o tratamento do nosso filho autista;
- Carregando o peso de uma injustiça sem voz, causada por alguém que diz lutar pelo coletivo.
Não há causa social verdadeira sem humanidade. E não há ativismo legítimo onde se escolhe lucrar em silêncio às custas de famílias comuns.
Quando a bicicleta é usada como fachada
A bicicleta é libertadora. Ela conecta, ensina, une.
Ela não foi feita para punir, excluir ou ameaçar.
Mas alguns usam o discurso da bicicleta como fachada para alimentar o próprio ego — ou pior, o próprio bolso — em vez de fortalecer a comunidade.
É fácil parecer correto quando se tem um blog popular, acesso a instituições, influência digital e discursos prontos. Difícil é agir com ética quando ninguém está vendo.
Precisamos rever quem estamos aplaudindo
Este texto é um convite à reflexão:
- Quem são as verdadeiras vozes do ciclismo urbano?
- Quem está realmente contribuindo para uma mobilidade mais justa, inclusiva e humana?
- E quem está apenas se beneficiando da pauta — e de seus seguidores — enquanto prejudica silenciosamente aqueles que mais precisam de apoio?
Nem todo ativista é ético. Nem todo influenciador merece confiança.
Nossa resposta é continuar pedalando
Apesar da dor e da injustiça, seguimos aqui.
Mais atentos. Mais maduros.
E certos de que a bicicleta merece ser representada por pessoas de verdade, não por quem transforma causas em ferramentas de intimidação.
Porque ética não é algo que se escreve. É algo que se vive.