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Curta-metragem motivado por morte de ciclista busca conscientizar motoristas

Nesta quarta-feira (19/8), completam 14 anos de uma das maiores tragédias de trânsito ocorridas no Distrito Federal. Em 19 de agosto de 2006, o ciclista Pedro Davison, 25 anos, morreu atropelado por um motorista que dirigia embriagado pelo Eixão Sul. O estudante de biologia havia acabado de sair da festa de aniversário da filha, Luiza Davison, 22, que à época completava 8 anos, para pedalar, quando foi atingido por um Marea prata.

O dia que seria de muita alegria ficou marcado por um crime bárbaro. Familiares e amigos da vítima, no entanto, decidiram fazer da data um marco e um motivo de conscientização para levantar a bandeira de paz no trânsito. Em 2017, foi sancionado o projeto de lei que instituiu o Dia Nacional do Ciclista, comemorado em 19 de agosto.

O caso ganhou repercussão e mobilizou pessoas e movimentos de todo o Brasil. Tanto que a história foi tema de um curta-metragem filmado em 2018. Intitulado Lulu Vai de Bike, o filme é protagonizado por Luiza Davison, que percorre as quadras de Brasília falando sobre os cuidados que uns devem ter com os outros no trânsito. A obra, até então, era apresentada apenas em festivais. Hoje, ela já pode ser assistida pela plataforma de vídeo Vimeo. (Veja Onde assistir). Diretor do curta-metragem, Edson Fogaça contou que sempre teve vontade de fazer um documentário sobre a mobilidade urbana de Brasília. A ideia inicial era retratar as ciclovias da área central da capital. Durante uma conversa com Luiza, eles decidiram que o tema seria paz no trânsito. “Eu conhecia a história do Pedro, mas não fiz a conexão imediata de que ela era a filha dele. Quando descobri, o filme já veio inteiro na minha cabeça”, disse Fogaça.

O intuito do diretor era inscrever a obra em festivais nacionais e, em seguida, reproduzir em plataforma digitais. “É uma peça de educação, uma discussão sobre mobilidade urbana em Brasília. A cidade vive um entupimento de automóveis e nossa ideia é estimular as pessoas que moram e trabalham no Plano Piloto a usarem bicicletas. Assim, favorecer quem mora no entorno e precisa, realmente, do carro”, ressaltou Fogaça. Para ele, um dos grandes desafios foi fazer um filme sem atores profissionais. Apenas Luiza é atriz. Os demais participantes são amigos, familiares e integrantes de movimentos ciclísticos, que participaram de forma voluntária.

Exemplo

Para Luiza, o ocorrido com o pai serviu de exemplo para muitas pessoas. O desejo dela é que outras famílias não passem pelo mesmo. “É muito legal quando surgem iniciativas positivas dentro de uma tragédia. Ideias criativas e educacionais. Minha família sempre fez isso por meio de manifestações. O curta traz uma história que comove, engaja”, disse. A ideia é que o filme seja apresentado em escolas, quando as aulas voltarem. “É uma forma de conscientizar por meio das crianças”, reforçou a atriz.

Junto ao Dia Nacional do Ciclista, Luiza comemora mais um ano de vida. Na data, ela costuma reunir amigos e familiares para homenagear o pai. “Eu tento planejar o máximo para não pensar em coisas ruins. Seria mentira se eu dissesse que não sinto tristeza pela morte do meu pai, mas tento trazer alegria à comemoração”, contou. Para ela, a data não representa apenas perda e luto, mas uma mensagem de paz no trânsito. “Conseguimos ressignificar, e isso é o mais bonito. Não é só sobre o meu pai, mas sobre a amplitude disso tudo e o propósito de levar essa mensagem para todos”, declarou.

Os pais de Pedro, Pérsio Davison, 72, e Beth Davison, 70, também participam do curta-metragem. Pérsio destaca que a mensagem do filme é ter uma visão carinhosa com o próximo no trânsito. O ensinamento, segundo ele, é fundamental para que haja harmonia entre pedestres, ciclistas e motoristas de todos os tipos de veículos. Ele lembra que a morte do filho, a princípio, era tratada como acidente. No decorrer da investigação, tornou-se crime. “Foi o primeiro julgamento em Brasília como crime doloso de trânsito. O caso criou impacto forte na cidade, como a revelação de uma violência que não podia mais acontecer. Aquilo foi consequência do comportamento de uma pessoa”, disse o aposentado.

Legislação

Para o conselheiro da ONG Rodas da Paz, Jonas Bertucci, as cenas do filme valorizam o uso da bicicleta, não apenas como lazer, mas no dia a dia. “Isso traz qualidade de vida. A homenagem ao Pedro mostra um trabalho de conscientização e de controle das políticas públicas, para que outras famílias não vivam o mesmo que a dele viveu”, destacou o ciclista.

Jonas contou que não conheceu Pedro, mas que se identifica com a história dele pelos interesses em comum. “Criar o Dia do Ciclista é algo simbólico, para não deixar passar em branco uma data não só para homenagear e lembrar, mas para cobrar os governos para que mude a legislação e que tenha políticas mais sustentáveis”, disse.

“Apesar das conquistas, temos trabalho pela frente para enfrentar. Temos muito trabalho para mudar a mentalidade do judiciário, de que motorista embriagado comete crime precisa ser penalizado”, completou o conselheiro da ONG Rodas da Paz

Depoimento

“Numa manhã de maio deste ano, saí de casa para praticar uma atividade física que eu amava e me propiciava uma condição física excepcional. É um esporte cultuado em várias partes do mundo, especialmente na Europa, com o Tour de France, Giro D’Italia e a Vuelta a España. Foi com o ciclismo que eu trouxe quatro medalhas de ouro para a minha instituição, uma outra paixão, a Polícia Civil, no World Police and Fire Games de 2017, em Los Angeles. Mas, por amor a minhas filhas, Marina e Stella, não pretendo mais pedalar em alta velocidade, como antes. Naquela manhã de maio, sofri um acidente que, por pouco, não tirou a alegria de vê-las se formarem e construírem a vida. Fiquei um mês em coma depois de ser atropelado ao lado de um parceiro de esporte que ainda se recupera no hospital. O motorista nem chegou a frear. Mas eu tive todas as condições para me reabilitar: médicos dedicados do Hospital de Base, onde recebi os primeiros atendimentos, e do Santa Lúcia. Faço tratamento de alta qualidade num hospital de excelência, o Sarah Kubitschek. Estou inteiro e quase pronto para voltar ao trabalho como delegado de polícia. Muitos outros não tiveram essa oportunidade. Minha sorte foi estar treinando a 30 km/h, o que diminuiu o impacto do veículo que nos atingiu. Meu capacete ficou destruído, mas poupou a minha vida. Enquanto me recupero, vejo histórias tristes, como um recente acidente que matou dois ciclistas na volta do trabalho. Eles estavam no acostamento e, segundo o noticiário, não tiveram chance de sobrevivência, apesar de terem sido socorridos pela Polícia Militar. Só um respeito ao Código Brasileiro de Trânsito por parte dos motoristas poderia evitar tragédias dessa natureza. O ciclismo não pode morrer no Brasil”. Depoimento de Fernando Cesar Costa, delegado e ciclista.

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